segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Eu sou só um homem

"Eu sinto vergonha
Dos olhares vestidos
Que me velem censuras
Por eu ser homem
Eu sinto vergonha
Por ser despido
Como assassino
Ou depravado

Eu sinto tormento
Me coloco em luto
Pelos olhares que julgam
Pelo ódio afoito
Daquelas que andam
Caladas
Na calada da noite.

Eu me sinto coagido
Eu me sinto perseguido
Sob olhares tão densos
E o que eu fiz?

Nasci homem
Nasci machista
Nasci perdido
De uma geração para outra
Entre mudanças que não entendi
E sou acusado.
Sou culpado
Sou depravado
E privado de opinião.

E sinto vergonha,
Pois sou o assassino,
O cúmplice
O júri
O delegado
O juiz
A sociedade.
Eu sou tudo isso
Porque sou homem
Nasci homem
Vou morrer homem.

Mas sinto essa culpa
E peço perdão
Às mulheres do mundo
Pelo medo da noite
O medo do só
A incompreensão dos boêmios
E a raiva dos poetas.

Sinto pela falta de amor
E as manchas que não são de batom
Sinto pelos carrascos
Da falta de crimes que surgem
Na mesma calada da noite
Que torna a todas elas vítimas.

Perdão por ser homem
E criticar o decote
Ladrar a postura
E elogiar o rabo
Quando não olho ao meu.
Sou culpado
Sou homem
E quando elas olham
Eu sei que sou homem.
Quando elas fogem
Eu sei que sou homem.
O medo é minha culpa
O ódio vem dos meus

O homem é culpado
E eu sou um homem."