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quarta-feira, 5 de maio de 2021

Riscos de Giz

Riscos de giz na calçada
Semeia a chuva, borrões turvos de nada
Olhares atentos ao que a tristeza não quis
Como riscos de giz
Na calçada

Trêmula é a mão que acolhe o luto
Que escolhe o jeito mais bruto de negar o perdão
Solos sedentos, perdidos por um triz
Como riscos de giz
No coração

E sigo à risca aquilo que ditava
Os lábios perdidos que o choro não salva
Berço atrevido de linhas em coro por um triz
Como riscos de giz
Que a chuva lava

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Eu, Palhaço

Eis-me aqui, então
Atento à própria tragédia
Forçando o caminho à comédia
Quando a boca toca o chão

Entre sátiras e ironias
Entre bizarrices e caretas
Eu sou aquele que faz poesia
Do gosto amargo da sarjeta

Seja pelo silêncio, que tudo diz
Um nariz velho que assim se vai
É o último chamariz
Daquele que da ribalta não cai

E chorar o que vem escondido
Abafar o que explode em mim
E soltar em risos o que é suprimido
Para gargalhar de tudo no fim.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Peso

Pra quem se dá palavras quentes
O som do silêncio é o frio cortante
Nada parece mais ser como antes
Quando um erro do verbo é tão presente

E ainda corre nas veias a bruma densa
Um vislumbre de terror sob a luz da lua
Quando se mostra em face a tristeza crua
Cuja dor é mais ferina que se pensa

Há um dourado dos olhos tão forte
Esse brilho tal que não se rende à dor
E só tardiamente se percebe a sorte
De guiar esse brilho onde ele for

Mas a força ainda é maior no amar
Pois a fé de que ele cresce é permanente
Cura feridas e a aplaca o pesar
E nos dá a entrega livremente